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Artigo: CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ
Sobre um manifesto de meias verdades

Quinta-feira, Outubro 26, 2006
Uma crítica contundente aos Magníficos bajuladores de Lulla.

O debate e o contraditório não apareceram no manifesto em que reitores de universidades federais aderem à candidatura Lula

REITORES DE Universidades e outros dirigentes de instituições federais publicaram um manifesto aderindo à candidatura Lula. Declaram satisfação com os últimos quatro anos, que querem ver continuados, e se referem a supostas ameaças trazidas pela candidatura de oposição, na já tristemente familiar tática de lançamento de suspeita adotada pela campanha da situação. O debate e o contraditório não apareceram no manifesto -de características maniqueístas e, por isso, simplificadoras. O contrário do que se esperaria de representantes da inteligência e do pensamento crítico brasileiro, que poderiam ter deflagrado um debate sobre a educação no Brasil. Os autores se referem à criação de dez universidades federais. Pode interessar ao eleitor saber que novas universidades foram três, e não dez, pois sete foram mudanças de denominação ou desmembramentos de instituições previamente existentes.

Interessa ao contribuinte o aumento no número de estudantes que têm acesso ao ensino superior público e gratuito, o de maior qualidade no Brasil. Segundo os dados publicados, o governo FHC criou condições para que mais brasileiros entrassem no ensino superior público federal a cada ano -em relação ao que Lula tem feito. Nos anos FHC, o crescimento anual nas matrículas nas federais foi de 5,2% ao ano, bem mais alto do que os 3,3% do primeiro ano (o único para o qual a administração atual foi capaz de mostrar os dados) de Lula. A política que atende ao contribuinte e aumenta o acesso à educação pode não ser a mesma que alegra os reitores. O amor ao contraditório -do qual, em geral, nasce mais conhecimento- exigiria a menção, quando se faz referência ao crescimento dos recursos federais para financiamento à pesquisa do FNDCT, que tal crescimento se deve aos Fundos Setoriais, uma criação do Ministério da Ciência e Tecnologia no período FHC. Um governo posterior constrói sobre o que o anterior deixou. Os recursos do FNDCT aumentaram, mas, infelizmente, em relação ao PIB, o valor do investimento em P&D no país vem diminuindo desde 2001.


O manifesto dos reitores, preocupado com a educação dos brasileiros, poderia ter lembrado também que, no governo FHC, a descentralização de recursos e o Fundef permitiram ao Brasil -e aqui, sim, pela primeira vez em sua história- universalizar o ensino fundamental. Foi uma conquista marcante para o país e para todos os que se preocupam com o avanço da educação; e especialmente importante para os brasileiros mais pobres, para os pretos e pardos, que formavam o maior contingente fora da escola. Ajudaria a ampliar o debate sobre o nevrálgico tema da educação e do ensino superior se os reitores explicitassem que o candidato Alckmin governou o Estado onde estão as melhores universidades públicas do país: USP, Unicamp e Unesp, as três com regime de autonomia e vinculação orçamentária. Regime que nenhuma universidade federal tem, e ao qual a "reforma universitária" do governo Lula nem sequer aludiu. Nos últimos cinco anos, o crescimento nas matrículas em São Paulo tem sido de 5% por ano -50% maior do que o governo Lula tem conseguido. Na pós-graduação, o crescimento nos últimos dez anos foi de 68%. São Paulo faz o maior esforço nacional em pós-graduação e pesquisa, sendo o estado que mais forma doutores. Larga proporção deles vem dos outros estados e a eles retorna para desenvolver as instituições locais. Nas universidades paulistas, mais de um terço das matrículas é no período noturno, aumentando as chances de estudo em boas universidades para os que precisam trabalhar durante o dia. Nas federais, esse percentual é de somente 23% -mas parece ser considerado bom pelos reitores signatários e pelo candidato Lula. Também nesse assunto, a "reforma universitária" do governo Lula é tímida. Em São Paulo, é a Constituição que preconiza o terço de vagas no período noturno. No apoio à pesquisa, o governador Geraldo Alckmin honrou com precisão o estabelecido na Constituição quanto ao financiamento da Fapesp. Nunca houve nenhum contingenciamento, como o governo FHC fez e o governo Lula continua fazendo, com os recursos dos Fundos Setoriais e do FNDCT. Fernando Brant escreveu: "E o que foi feito é preciso conhecer, para melhor prosseguir. Falo assim sem tristeza. Falo por acreditar. Que é cobrando o que fomos. Que nós iremos crescer". Está na hora de o Brasil crescer. Crescer no respeito a outras opiniões, à verdade, ao debate límpido e claro sobre os destinos do país, sem demagogia, sem rotulações e sem simplificações. Senão só o que resta é a tristeza do pensamento único.

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CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ, 50, engenheiro de eletrônica graduado pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e doutor em física pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), é diretor científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), entidade que presidiu de 1996 a 2002. Foi reitor da Unicamp (2002-2005).

Comentário de ROBERTO ROMANO DA SILVA :

Excelente artigo postado acima. Desde o título: se os Magníficos adulões falaram meias verdades, é porque invocaram meias mentiras. Como não existe verdade ou mentira pela metade (é o mesmo caso da virgindade...) o título já mostra que os Magníficos estão longe de merecer um cargo de orientador das pesquisas e do ensino. Estes, sem verdade, são apenas charlatanismo. O artigo também indica o caminho que deveria ter sido trilhado pelas oposições no confronto com o PT. Dados sólidos, argumentos fortes, definição de alvos inquestionáveis. Note-se que a reação do Dr. Carlos Henrique Brito Cruz contra os Magníficos Bajuladores vem no mesmo dia em que a Dra. Maria Sylvia Carvalho Franco os questiona, na página 2 da Folha (reproduzido abaixo). Trata-se de pessoas que sabem o que fazer na Universidade, prezam o saber e não se deixam intimidar pelos ataques ou pelas ofertas de cooptação. O Dr. Brito é cotado para uma Secretaria do Governo Serra. Excelente escolha. Esperemos que ele mantenha no cargo a mesma segurança e firmeza que o marcou até hoje, para bem de São Paulo e do Brasil.
Roberto Romano

PS: Na página 03 da Folha, mesmo lugar onde foi publicado o artigo do Dr. Brito, lemos hoje uma peça brilhante que expõe a tática do "morde e assopra" inagurada no PT por Tarso Genro. A ex-prefeita Suplicy fala em "lacerdismo" para o setor tucano comandado por FHC e joga dengos, zumbaias e rapapés para Aécio Neves e José Serra. A desfaçatez é grande, esperemos que os adulados agora não caiam na cilada. É perfeitamente possível administrar como governadores da oposição, exigindo da presidência da república o respeito pelo país, sem necessidade de rastejar diante do Noço Líder (para usar a saborosa expressão de Alvaro Caputo, do Blog Pérolas). Se algum político, eleito para representar a inconformidade cidadã contra os crimes (caixa dois é crime, sim senhor!) do PT, se arvorar em áulico do Planalto, pode ter a certeza: nem será mais acolhido pelos eleitores, nem será respeitado pelos donos do poder. Se escutarem os que neles votaram, terão futuro digno, mesmo perdendo eleições. Se aceitarem os conselhos da sereia lullista, estarão jogados na abjeção política.
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Fonte: Filosofia Política

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